No post anterior eu contei que minha infância de videogame inteira foi em cima de um Polystation. Não fui exceção — fui regra. Se você cresceu no Brasil nos anos 1990 ou 2000 e não teve um console original em casa, é bem provável que seu primeiro contato com videogame também tenha sido numa caixa branca parecida com PlayStation, vendida numa banca de camelódromo.
O que realmente tinha dentro da caixa
Aqui está o detalhe técnico que a maioria das pessoas que teve um nunca soube: apesar da casca plástica desenhada pra lembrar um PlayStation — disco giratório de mentira incluído —, por dentro o Polystation não tinha nada a ver com a arquitetura da Sony. Era, na prática, um Famiclone: um clone de 8-bit baseado no chip do NES/Famicom, o mesmo tipo de hardware barato usado em dezenas de consoles genéricos vendidos pelo mundo todo sob nomes diferentes. Os jogos vinham gravados num cartucho "999999 em 1", quase sempre cópias ou variações simplificadas de clássicos de 8-bit — nada remotamente parecido com o catálogo real de PS1.
Era, essencialmente, uma fraude de design: vender a aparência de um console de última geração (pra época) rodando por dentro uma tecnologia de quinze anos antes.
Por que foi tão popular especificamente aqui
O Brasil historicamente tributa eletrônicos importados de forma pesada — somando impostos de importação, ICMS e outras taxas, o preço final de um console original no mercado brasileiro costuma ficar bem acima do preço praticado em outros países. Isso empurrou boa parte da população pra fora do mercado de consoles oficiais durante décadas inteiras.
O Polystation preencheu esse vazio. Vendido abertamente em camelódromos e bancas de rua, por uma fração do preço de qualquer console legítimo, virou praticamente sinônimo de "videogame acessível" pra uma geração de brasileiros — a ponto de o nome "Polystation" virar genérico, do jeito que "Bombril" virou sinônimo de esponja de aço, mesmo quando o aparelho específico era de outra marca de clone.
Pirataria que também foi porta de entrada
Não dá pra romantizar sem reconhecer o óbvio: o Polystation inteiro era construído em cima de pirataria — hardware clonado sem licença, jogos copiados sem direito algum pago a quem os desenvolveu. Isso teve custo real pra uma indústria inteira.
Mas também é verdade, e vale registrar, que pra uma quantidade enorme de gente no Brasil, aquela caixa branca pirata foi o único contato possível com videogame durante a infância. Antes de qualquer discussão sobre DRM, bloqueio de hardware ou travas de fabricante — os temas que normalmente aparecem aqui no blog —, o Polystation é um lembrete de que existe um problema de acesso mais básico: quando o produto original custa caro demais pra existir na vida de alguém, o mercado informal aparece pra preencher esse espaço, do jeito que for.
Conclusão
O Polystation não tem nada a ver com sequestro de hardware — é quase o oposto: hardware barato, sem licença, sem travas, acessível demais pro próprio bem da indústria que ele copiava. Mas talvez seja por isso que ele marcou tanta gente: foi o primeiro console de muita gente, mesmo sendo, tecnicamente, uma fraude bem-feita. A pergunta que fica: quantas pessoas descobriram a paixão por jogos através de uma pirataria que, por outro lado, nenhuma empresa jamais teve a decência de resolver oferecendo um produto legítimo e acessível?